Estou só,
profundamente só.
Mas sinto-me unido aos que estão acompanhados.
Estou triste,
profundamente triste.
Mas estou unido aos que saltam de felicidade.
Estou feliz,
arrebatado por uma alegria que não cabe em mim.
Mas estou unido aos que estão tristes, aos que sofrem.
Estou rodeado de amigos,
e dos que mais amo.
Mas estou unido aos que não têm ninguém.
Estou doente,
doente e diminuido.
Mas estou unido aos que estão saudáveis.
Sou feio,
horrivel.
Mas estou unido aos belos.
Sou belo,
mas estou unido aos feios
Sou velho,
mas estou unido aos novos.
Sou novo,
mas estou unido aos velhos.
A minha vida está a acabar,
mas sinto-me unido àqueles cuja vida está agora mesmo, apenas, a começar.
Ainda vou nascer,
mas estou unido aos que já morreram.
Estou unido a todos,
aos que estão no mesmo barco que eu,
aos que estão noutros barcos,
aos que estão noutros mares,
aos que estão em terra.
Estou só.
Mas estou unido ao mundo inteiro.
quarta-feira, novembro 10, 2004
terça-feira, outubro 26, 2004
sexta-feira, outubro 22, 2004
COMBOIO
Mais cegonhas. E garças
nos campos de arroz.
Flores roxas e amarelas.
Muitas aves grandes
que fogem quando passa o comboio.
Flores vermelhas.
Casas brancas.
Cavalos brancos
e alguns castanhos
nos campos com mil verdes.
Uma vaquinha branca olha
tranquila o comboio que passa a voar.
Cinco jovens touros negros descansam
mascando erva.
Um rapaz envia um sms
à namorada.
quinta-feira, outubro 21, 2004
SOBRE A PUREZA
Pureza é o que nasce da alma selvagem,
espontânea.
É contemplar o que é.
É o que nasce da ingenuidade
da confiança.
Pureza não é desinfecção.
Há quem queira desinfectar as almas e as coisas
dos "pecados", das coisas más.
De garrafa de lixívia e luvas nas mãos.
Um ambiente asséptico não é puro. É morto.
Pura é uma criança.
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